Viciados em compras: doença ou estilo de vida?

No filme Os Delírios de Consumo de Becky Bloom, uma comédia romântica lançada em 2009, a protagonista é uma jornalista recém-formada às voltas com sérios problemas em suas finanças pessoais. O motivo? Sua compulsão em fazer compras. Bolsas, lenços, casacos — tudo é motivo para sacar o cartão de crédito. Mas apesar do tom ameno da história e de sua visão conciliadora e engraçada, o consumo compulsivo é uma realidade que pode levar as pessoas à ruína.

Para a psicóloga Adriana Severine, acostumada a tratar consumidores compulsivos, a pessoa começa a comprar e logo perde a noção. “Ela não consegue passar mais do que poucos dias sem comprar algo, seja uma roupa ou produtos de supermercado, sem dar importância ao preço ou à utilidade”. Trata-se de um arroubo, uma necessidade imensa de comprar “alguma coisa”, que é de onde o consumista tira o seu prazer.

Por vivermos numa era propensa ao consumo desenfreado, haja vista a oferta de crédito e de bens em abundância, nem sempre é uma tarefa fácil distinguir entre o consumista normal e o patológico. Muitas pessoas, inclusive, veem nas compras um momento de relaxamento, a ponto de existir em inglês uma expressão para isso, retail therapy (“terapia de compras”, em tradução livre), cuja definição, segundo o site Urban Dictionary, é “um pretexto para as pessoas, sobretudo mulheres, fazerem compras quando se sentem mal”.

“É fácil para o consumista patológico se esconder atrás do argumento de que precisava daquele produto. Muitos não conseguem passar três dias sem comprar alguma coisa. A dificuldade de identificar e oferecer ajuda a um comprador compulsivo é que o distúrbio muitas vezes só aparece para as pessoas que convivem com o compulsivo quando este já está cheio de dívidas”, assegura a dra. Adriana, que vê na falta de condições do consumista de arcar com suas contas um motivo a mais para levá-lo ao desespero.

Tornam-se comuns, nesses casos, argumentos para abrandar a culpa, tais como “eu mereço, a minha vida está tão difícil que mereço um presente hoje”, entre outras justificativas. O problema, afirma Adriana, é que esse “hoje” se torna diário, e um dos sinais de que as coisas não estão indo bem é que a pessoa compra muitos produtos repetidos, quase sempre sem necessidade, como comida, por exemplo, que acaba indo parar no lixo.

Há muitos fatores que podem determinar a manifestação do consumo compulsivo. O que é ponto pacífico para psicólogos e especialistas, porém, é que essas pessoas compram para ter uma sensação reconfortante e prazerosa. Trata-se de um problema complexo, de origem psicológica, na medida em que há diversas variáveis a serem consideradas antes de se proceder a uma correta abordagem do indivíduo, uma vez detectado o problema.

“A maior dificuldade de tratar os compulsivos é que devemos levar em conta todos os aspectos da vida do paciente, pois o compulsivo pode mudar o alvo de seu prazer. Se ele é um comprador compulsivo e sua família resolve ajudá-lo, tirando o seu cartão de crédito e controlando as suas compras, inconscientemente ele busca outra fonte de prazer em outro tipo de compulsão, que pode ser de ordem alimentar, sexual, jogos, etc.”, explica a psicóloga.

A manifestação do consumo compulsivo varia de pessoa para pessoa, obedecendo à história e à origem de cada sujeito: uns compram mais comida, outros roupas, eletrônicos, e assim por diante. Essa forma de perpetuar a sensação de prazer por meio da aquisição de coisas, contudo, vai-se tornando, paradoxalmente, cada vez mais efêmera e insustentável, e um ato cuja finalidade original seria tornar a pessoa mais feliz e realizada, acaba transformando-se numa fonte de angústia e decepção.

“O tratamento mais indicado nesses casos é a Terapia Cognitivo Comportamental (TCC), que auxilia o paciente a entender a raiz da sua necessidade de comprar em excesso para se sentir feliz”, explica a dra. Adriana, que faz questão de ressaltar a diferença entre o consumista “normal” e o compulsivo:

“É diferente ser compulsivo e ser comprador: no segundo caso a pessoa busca comprar coisas de que realmente precise ou que lhe agradem; busca melhores preços, consegue esperar para comprar. O compulsivo compra muito sempre, exagera no supermercado, compra blusas do mesmo modelo em cores diferentes, compra coisas que ‘algum dia’ poderá usar”, explica.

É a constância nas compras, segundo a psicóloga, uma das principais características do consumista compulsivo. “Não é a compra de hoje que me deixará feliz amanhã — e aí no dia seguinte precisa fazer outras compras”.

Embora sejamos todos um pouco consumistas — outros mais, outros menos, é preciso que se diga —, um consumidor comum dificilmente se passará por compulsivo na medida em que não é movido pela dinâmica do “prazer vs. culpa” na hora de comprar, mas sim por necessidades plausíveis. Segundo Adriana Severine, para consumistas patológicos “o prazer é momentâneo, e é seguido de uma culpa enorme, que só diminui quando se compra mais. Torna-se um ciclo vicioso, do qual é cada vez mais difícil se desvencilhar.”

 

Yahoo

13/03/2017