Vestido para o prazer

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Comentando o “Se eu fosse você”

A questão da semana é o caso do internauta que conheceu um homem num aplicativo gay. Resolveram marcar um encontro, mas o outro lhe disse que gosta de usar roupas femininas durante a transa e que não gosta de ficar nu na cama. Um caso que pode ajudar a compreender essa situação foi vivido por Juliana.

Ela fazia sempre o mesmo trajeto de volta para casa, no aprazível bairro da Urca, no Rio de Janeiro. Ia ao mercado comprar pequenas coisas e retornava, cumprimentando gente amiga nas portas e janelas. No dia em que seu – então recente – casamento acabou ela cumpria a mesma rotina.

Ao dobrar a esquina, contudo, chamou-lhe atenção o padrão do vestido da bela mulher que atravessava a rua. Era semelhante a um dos seus vestidos, e não era um padrão comum. As duas mulheres foram se aproximando. Juliana não conseguia tirar os olhos da outra, alta, magra… e do “seu vestido”, na verdade curto demais para a estranha, que ficava com as pernas à mostra.

Estranheza, essa era a única palavra possível, até as duas ficaram olho no olho. Juliana foi obrigada a reconhecer que aquela mulher era o seu marido, Roberto, maquiado e equilibrando-se em saltos altíssimos, e que o vestido, sim, também era o seu.

Roberto é um crossdresser, termo em língua inglesa que traduzido literalmente para o português significa travesti. Mas trata-se de uma variação sutil e bastante diversa da mesma condição aparente. O crossdresser, em muitos casos, é heterossexual e ao vestir-se como uma mulher está apenas cedendo a um impulso de seu prazer.

Muitos crossdressers costumam se manter no completo anonimato, usando trajes do sexo oposto reservadamente. Alguns relatam que só se sentem em paz quando se “montam”, ou seja, se vestem e se maquiam como mulher, mesmo que estejam sozinhos. Outros tornam público seu desejo.

As esposas dos crossdressers, quando conseguem superar o choque inicial, parecem conviver bem com a excentricidade dos maridos. Há mulheres que namoram homens com essa inclinação sem maiores problemas.

É o caso de Silvia. Ela tem 29 anos e namora Sérgio, 58. Quando travestido de mulher, ele se transforma em Wilma.

Ela narra sua experiência:
“Uma amiga o apresentou. Conheci-o como homem, mas duas horas depois ele apareceu como mulher. Num primeiro momento você fica parada, sem ação, mas depois é tranquilo. Eu até gosto quando ele está de mulher, porque é mais extrovertido, mais alegre”.

Questionado sobre a frequência de sua transformação ela responde que “Ele tem uma vida normal. Só um dia na semana é que atua como crossdresser. E o grupo de crossdressers é muito agradável, são todos alegres.” Ela acrescenta que na cama ele é super carinhoso.

O documentário “Tudo sobre meu pai”, do cineasta norueguês Even Benestad sobre seu pai, o respeitado médico Esben Benestad, que costuma vestir-se de mulher, é bom exemplo do tema. Usando o farto material de registro familiar, em filmes super 8 da abastada classe média do norte da Europa, Even pôde mostrar como foi sua vida e a da irmã ao lado do pai crossdresser.

Esben é simpático, falante, bonito, articulado, mas sua esposa o abandonou quando descobriu que ele usava maquiagem completa e calcinhas quando estava sozinho em casa. O depoimento, emocionado, dado a uma câmera em primeiríssimo plano, narra sua inclinação desde a infância, quando experimentava as roupas da mãe. Uma confissão interessa especialmente: Esben teve orgasmos ao travestir-se. Sujou as calcinhas da mãe, conta, indicando que sua sexualidade está diretamente ligada ao gênero definido pelo traje.

Esben não precisou romper a ordem burguesa para continuar sua existência. Ao contrário, assumiu o nome de Esther Pirelli em seus momentos como mulher. Escreve livros, é colunista de uma revista masculina e ativista político. Encontrou nova esposa, afinada com sua rica personalidade, e os dois vivem bem.

Apesar de praticada por homens e mulheres, a maior parte da literatura é focada em homens. As estimativas sugerem que muito mais homens do que mulheres participem do crossdressing e que a maioria deles se identifica como heterossexuais e não expressam o desejo de mudar permanentemente de sexo.

É difícil verificar a precisão das estatísticas devido ao estigma social contra o crossdresser, levando muitos deles a deixarem essa prática para o âmbito privado

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