Delegado suspeita de ciúmes em caso de morte de adolescente em escola

Jovem de 14 anos morreu por estrangulamento, conforme laudo médico. Três adolescentes que estavam na sala devem passar por acareação.

O delegado que investiga o caso da adolescente Marta Avelhaneda Gonçalves, de 14 anos, encontrada morta na quarta-feira (8) depois de uma briga dentro da sala de aula em Cachoeirinha suspeita que o motivo da desavença seja ciúmes. A jovem havia se mudado com a família de Porto Alegre para a cidade da Região Metropolitana em dezembro de 2016 e era nova na escola.

“Pelo que se recebeu de informe, uma delas teria um namorado, e esse namorado teve um primeiro contato com a vítima. E um ciúmes poderia ter ocasionado essa briga. Vamos buscar testemunhas, funcionários da escola, e apurar eventual responsabilização, omissão, que teria ocorrido por parte dos gestores daquele local”, afirma o delegado Leonel Baldasso.

O corpo de Marta foi enterrado no final da tarde de quinta-feira (9). Nesta sexta-feira (10), a polícia deve começar a ouvir testemunhas, e pretende fazer uma acareação entre as três alunas, duas de 12 anos e uma de 13,envolvidas na agressão.

As adolescentes foram intimadas para depor pela segunda vez sobre o caso. O delegado Leonel Baldasso explica que as versões que elas deram na quinta (9) não se encaixam com o resultado do laudo pericial, que apontou asfixia. “Elas disseram basicamente que a vítima teria caído e batido a cabeça, enquanto o laudo apontou o estrangulamento”, diz.

Baldasso acrescentou que o exame indicou que a força empregada para apertar o pescoço da adolescente foi muito grande. “O médico legista falou que fez um exame cadavérico e atestou estrangulamento com muita força. Houve um rompimento de alguns músculos. São termos médicos, mas houve uma força bruta no pescoço da vítima, e temos de esclarecer se alguma delas ou mais alguém asfixiou a vítima”, pondera.

Os depoimentos marcados para a tarde desta sexta (10) deverão ter o acompanhamento da Promotoria de Defesa da Infância e da Juventude do Ministério Público. “Entendi que essa participação seria importante”, comenta Baldasso. A diretora da escola também foi chamada.

O caso
O caso ocorreu na tarde de quarta (8) em uma sala de aula da Escola Estadual de Educação Básica Luiz de Camões. A ocorrência da Brigada Militar levada à delegacia após a morte informava que uma briga havia ocorrido entre a vítima e mais três colegas de uma turma do 7° ano, dentro da sala de aula. Marta foi encontrada desacordada.

As três adolescentes que teriam participado da agressão chegaram a ser levadas para a Delegacia de Polícia de Pronto Atendimento (DPPA), mas foram liberadas em seguida. “Vamos aprofundar as investigações e saber qual a motivação da briga. Ver se houve intenção de matar e, havendo intenção, as adolescentes vão ser enquadradas por homicídio”, explica o delegado.

A polícia também vai apurar a conduta dos funcionários da escola. O colégio tem 450 alunos.

CRE isenta direção
Procurada pela reportagem, a 28ª Coordenadoria Regional de Educação disse que não houve negligência dos profissionais e da direção da escola, e elogiou a atuação deles no episódio. A coordenadora Marta Ribeiro ressaltou que a diretora não tinha a informação de que houve uma briga quando socorria a vítima. O primeiro relato foi de que a adolescente tinha sofrido um mal súbito.

Além disso, conforme a coordenadora, a direção da escola chamou uma técnica de um posto de saúde que fez atendimento preliminar, antes da chegada de uma ambulância. A diretora também acompanhou a aluna no Hospital Padre Jeremias, onde soube que uma briga havia ocorrido. Eventuais punições a alunos envolvidos serão definidas após orientações da Polícia Civil e do Ministério Público.

Família pede justiça
Marta estava no segundo dia de aula na escola. As aulas começaram na terça (7).

A irmã define a adolescente como uma menina tímida, que pouco saía de casa. “Era tímida, mais na dela, bem amiga… Não gostava nem de sair mais, o que ela fazia era ir para o colégio, e se a mãe mandava ir no mercado. Ela só ficava no celular e no quarto”, conta Géssica Gonçalves.

Inconformada, a irmã da vítima pede justiça. “Não sei se a responsabilidade é do colégio. Não interessa se essas gurias são menores de idade, de algum jeito elas têm de ser penalizadas”, desabafa.

Devido à morte da estudante, os portões da escola, que fica na Vila Bom Princípio, amanheceram fechados na quinta (9), e ficará assim também nesta sexta (10). As aulas foram suspensas por dois dias.

Versões da diretora e de coordenadora de posto de saúde
Durante a manhã, a diretora da escola não quis falar com a reportagem. Questionada, disse apenas que estava “muito abalada”. À Rádio Gaúcha, mais cedo, Fani Drehmer de Oliveira relatou que a situação ocorreu na troca de turno de aulas.

“O professor estava se dirigindo para a sala de aula e, nesse meio tempo, os alunos me ressaltaram que tinha uma aluna passando mal. Quando chegamos, ela estava deitada no chão da sala, desacordada, convulsionando”, lembra.

Fani disse que soube da briga já no hospital. “Estava no hospital com a mãe e um professor me relatou da briga, mas não sei bem dizer se o óbito foi em consequência disso, é algo que está sendo investigado”, resume.

A diretora também disse que a menina não apresentava marcas de agressão. Fani classificou a morte da adolescente como uma “fatalidade”.

Também à Rádio Gaúcha, a coordenadora do posto de saúde onde a adolescente foi atendida, Gelci Machado Rodrigues, disse que a menina não apresentava marcas de agressão. “Não tinha lesão alguma, estava no chão, ela espumou um pouco pela boca, acredito que na hora do óbito”, relata.

Gelci conta que foi chamada por uma professora que chegou à unidade de saúde pedindo ajuda, relatando que uma “menina tinha passado mal e desmaiado”.  “Quando chegamos, ela estava sendo reanimada por um professor, com massagem cardíaca, enquanto uma professora fazia respiração boca a boca, e outra passava álcool nas extremidades”, lembra.

Pouco tempo depois, uma ambulância do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) chegou ao local. “Quando o Samu chegou, se tentou por várias vezes fazer a massagem, deram choque, sem resultado algum”, diz a coordenadora, acrescentando que a jovem foi levada para o Hospital Padre Jeremias, aparentemente já sem vida.

A coordenadora do posto também disse que soube de briga depois, pelas redes sociais. “Perguntei o que tinha acontecido, e um professor me disse que ela caiu da cadeira, em momento algum foi falado em briga”, relata.

g1

10/03/2017