Com dívida de R$ 600 mil, Ilê para atividades em escolas para crianças

Bloco afro mantinha unidades de ensino na sede, em Salvador.
Funcionários estão sem receber salários há cerca de seis meses.

Com uma dívida estimada de R$ 600 mil, o bloco afro Ilê Aiyê enfrenta uma crise que intitula como “sem precedentes”. Duas escolas mantidas pela entidade estão com as atividades suspensas por tempo indeterminado e alguns funcionários já foram demitidos por falta de recursos. “Já passamos por outras dificuldades, mas essa é a pior”, afirma o presidente do bloco, Antonio Carlos dos Santos, o “Vovô do Ilê”.

As dívidas estão relacionadas, dentre outras questões, à falta de pagamento de funcionários e fornecedores, empréstimos bancários e pendências acumuladas do carnaval com o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (ECAD), que é uma empresa privada responsável por centralizar a arrecadação e distribuição dos direitos autorais de execução pública musical.

As dívidas acabaram afetando as unidades de ensino que ficam na Senzala do Barro Preto, sede do bloco. Há mais de 20 anos, o Ilê Aiyê mantém no espaço as escolas Mãe Hilda e Band’ erê. A primeira abriga mais de 200 alunos da alfabetização até a 4ª série do ensino fundamental. A segunda, que oferece educação complementar para mais de 100 crianças e jovens, conta com aulas de dança, percussão, canto, relações interpessoais (cidadania) e capoeira.

Conforme Vivaldo Benvindo, um dos diretores do bloco, a escola Mãe Hilda chegou a concluir as atividades no ano letivo de 2016. Entretanto, a retomada das aulas em 2017 ainda é uma dúvida. “Nem matrícula começamos ainda, porque estamos aí com dívida com os professores [e funcionários]”, relatou. Ao todo, são seis meses de atraso.

Já a escola Band’ erê está com as atividades suspensas desde o segundo semestre de 2016. “Isso traz um transtorno muito grande aqui para a comunidade porque a maioria das crianças aqui – nós recebemos crianças a partir dos 8 anos -, como é o normal da questão dos afrodescendentes de periferia, as mães chefe de família trabalham e saem de manhã. Os meninos fazem o quê? Uma escola num turno e a outra no outro turno”, explicou.

Patrocínio
Um dos motivos para a crise, relatado pela direção do Ilê, está relacionado a um convênio estabelecido com a Petrobras entre os anos de 2014 e 2015. O diretor Vivaldo Benvindo afirma que duas parcelas de R$ 197 mil previstas no acordo não foram repassadas pela empresa, o que teria provocado o acúmulo de dívidas. O valor total do contrato foi de 1,9 milhão.

Os valores do patrocínio são referentes ao projeto “Ilê Construindo o Futuro”, que atendia às escolas.

Por meio de nota enviada ao G1, a Petrobras atestou o patrocínio ao projeto “Ilê Aiyê Construindo o Futuro”, que foi vigente até 22 de dezembro de 2015. A empresa explicou que, conforme contrato, 20% do valor total previsto para o patrocínio só seria repassado após o cumprimento integral de todas as atividades combinadas com o bloco, o que não teria ocorrido.

“A Petrobras que vinha nos acompanhando durante todos esses anos retirou apoio. Na verdade, encerramos no final de 2015 o convênio de dois anos do último contrato. Dois anos de um trabalho social conhecido no mundo inteiro. Por conta disso, tivemos que interromper atividades”, diz.

“Ao longo dos procedimentos de fiscalização, foi verificado que as ações previstas no plano de trabalho, referentes à realização de duas oficinas profissionalizantes em Estética Afro, não foram integralmente executadas. A instituição também não alcançou a meta de participantes previstos por ela no plano de trabalho onerando o custo per capita do projeto.  Desta forma, não foi possível a liberação dos recursos restantes”, disse a Petrobras.[Veja nota completa da Petrobras ao final da reportagem]

Sobre as oficinas profissionalizantes que não teriam sido realizadas e a meta de participantes, Vivaldo Benvindo preferiu não comentar especificamente sobre as questões, mas ressaltou que está marcada para segunda-feira (6) uma reunião entre a entidade e a Petrobras, na sede da empresa.

Carnaval
Apesar das dificuldades enfrentadas pela entidade, o presidente Vovô do Ilê afirma que a saída do bloco está confirmada para o carnaval 2017 por meio de dois patrocínios firmados: Caixa Econômica Federal e Governo do Estado.

Sobre a 38ª Noite da Beleza Negra, que irá eleger a Deusa do Ébano neste sábado (4), Vovô disse que a realização será possível graças aos apoios. “Contamos com muita colaboração. Elísio Lopes Jr (diretor artístico) não está cobrando nada, Daniela Mercury não está cobrando nada, Larissa Luz também. Muita gente não vai ter cachê”, contou.

NOTA DA PETROBRAS

A Petrobras esclarece que o patrocínio ao projeto Ilê Aiyê Construindo o futuro –  vigente de 23 de dezembro de 2013 até 22 de dezembro de 2015, sem prorrogação de prazo – tem um saldo contratual correspondente a 20% do valor total, que só poderia ser pago após o cumprimento integral do que foi previsto em contrato.

Ao longo dos procedimentos de fiscalização, foi verificado que as ações previstas no plano de trabalho, referentes à realização de duas oficinas profissionalizantes em Estética Afro, não foram integralmente executadas. A instituição também não alcançou a meta de participantes previstos por ela no plano de trabalho, onerando o custo per capita do projeto.  Desta forma, não foi possível a liberação dos recursos restantes.

A Petrobras deu conhecimento à instituição de todas as pendências, e as soluções cabíveis serão adotadas conforme procedimento previsto no instrumento contratual, em conformidade com as normas e padrões da Companhia.

g1

04/02/2017